Ainda que seja um assunto consideravelmente complexo,
procuramos abordar o desenvolvimento do câncer de mama de uma maneira
abrangente e sucinta, de maneira que todos, profissionais de saúde ou leigos,
tenham uma compreensão adequada do tema.
INÍCIO DO CÂNCER
Praticamente todos os tipos de câncer, seja qual for sua
localização, surgem de maneira aproximadamente semelhante. Em todos, ou talvez
quase todos os casos, uma mutação ou uma ativação anormal
de genes faz com que uma célula normal, sadia, se transforme em célula
cancerosa. Denominam-se oncogenes os genes anormais, passíveis de
levar uma célula a se transformar em célula cancerosa. Porém, existem também antioncogenes,
genes responsáveis por suprimir a atividade de oncogenes específicos. Vê-se
assim, que ainda que um gene por algum motivo sofra mutação e se transforme em
um oncogene, há um mecanismo natural de defesa para impedir que isso ocorra.
A formação ou presença de oncogenes, ou a perda ou
inativação de antioncogenes, pode deflagrar o início de um câncer. Ainda assim,
a questão não é tão simples. Células que sofreram mutações tem menor
sobrevivência no organismo. E tais células, por possuírem genes anormais,
formam conseqüentemente proteínas anormais; tais proteínas anormais são
detectadas pelo sistema imune, que passa a destruir as células mutantes. Assim,
percebe-se que é necessário uma combinação de fatores para que ocorra o
surgimento e estabelecimento de um câncer.
Mas quais fatores podem contribuir para que uma célula
sadia, contendo genes normais, se torne uma célula cancerosa? Alguns dos
fatores que podem aumentar a probabilidade de mutações genéticas (os chamados
de fatores mutagênicos) são:
·
Exposição a radiações, como radiação
ionizante, raios X, raios gama e até mesmo luz ultravioleta (UV);
·
Contato com certas substâncias químicas
(ditas substâncias carcinogênicas), como, por exemplo, a anilina
ou o asbesto;
·
Irritantes físicos
·
Fatores hereditários, uma vez que a
maioria dos cânceres necessita de mais de um oncogene para seu surgimento; assim,
uma pessoa com uma combinação de oncogenes pode transmitir essa combinação aos
seus descendentes;
·
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Certos tipos de vírus, pelo menos em
animais de laboratório, provaram poder causar alguns tipos de câncer, uma vez
que tais vírus tem a capacidade de agir alterando o DNA da célula hospedeira.
Uma vez que, devido a uma combinação de fatores e condições
favoráveis, uma célula portando genes anormais consegue driblar os mecanismos
de defesa, há uma grande chance de se desenvolver um câncer. Se houver
disponibilidade de oxigênio e nutrientes, a célula mutante poderá apresentar a
principal característica das células cancerosas: crescimento desmedido. Células
cancerosas crescem sem respeitar os limites. E, quando estas células se dividem
(e elas o fazem de maneira contínua), geram novas células com as mesmas
características, que gerarão novas células, promovendo assim o desenvolvimento
do tumor. Ainda que a disponibilidade de oxigênio e nutrientes seja limitada,
células cancerígenas produzem fatores angiogênicos, que promovem
o crescimento de vasos sanguíneos para suprir as necessidades do tumor em
crescimento. Alem disso, as células cancerígenas se aderem pouco umas às
outras. Dessa maneira, elas têm a tendência de “vagar” pelos tecidos, entrar na
corrente sanguínea e se estabelecer em um local por vezes distante daquele onde
se originou. Isso provoca as metástases (focos de crescimento
canceroso em diferentes regiões do corpo; é o que popularmente se diz que “o
câncer espalhou-se pelo corpo”).
ANATOMIA DA MAMA
Para compreender o desenvolvimento e os tipos de câncer que
acometem a mama, faz-se necessário um breve resumo da sua anatomia.
A mama é constituída basicamente pelo tecido glandular,
responsável pela produção de leite, que é direcionado ao exterior, aos mamilos,
por uma série de ductos; é sustentada internamente por tecido
conjuntivo fibroso e circundada por tecido adiposo. A mama é sensível aos
hormônios, e se modifica de acordo com o ciclo menstrual e a idade. Além disso,
tanto o mamilo quanto a aréola possuem também musculatura lisa e ricamente
inervados. As glândulas são reunidas em estruturas chamadas lóbulos, e os
lóbulos se organizam em lobos. Cada mama tem de 15 a 20 lobos.
Há ainda uma série de vasos linfáticos
principalmente nas laterais da mama, que drenam para as axilas.
As glândulas são reunidas em estruturas chamadas lóbulos,
e os lóbulos se organizam em lobos. Cada mama tem de 15 a 20
lobos.
Vale lembrar que, salvo as devidas diferenças sexuais, a
anatomia da mama é praticamente a mesma em mulheres e homens. Nas mulheres,
entretanto, devido a influência hormonal, há um grande desenvolvimento do
tecido glandular e maior concentração de tecido adiposo. No homem, porém,
embora exista tecido glandular, este é extremamente reduzido e, claro,
afuncional.


Fonte: http://revistavivasaude.uol.com.br/arquivosold/saude-nutricao/116/imagens/i364218.jpg/http://www.protesedesiliconementor.com.br/arquivos/mamoplastia/2012/9/6_66_mamoplastia_g.jpg
CÂNCER DE MAMA
O câncer de mama pode se desenvolver tanto nas glândulas
quanto nos ductos. Basta que alguma célula desses tecidos sofra processo de
mutação, como explicado anteriormente. Assim, conforme o tecido em que o tumor
se desenvolve, temos os diferentes tipos de câncer de mama, descritos a seguir.
Formas não-invasivas:
- Neoplasia ductal intraepitelial (Carcinoma in situ) – DIN
- Neoplasia lobular intraepitelial – LIN
Formas invasivas:
- Carcinoma ductal
- Carcinoma lobular
| Ressonância Magnética: Realce heterogêneo e anelar, característico do carcinona Ductal. |
Formas clínicas especiais
·
Doença de Paget: lesão descamativa,
lembrando eczema. A pele pode se apresentar úmida, quente, com crostas ou
erosões; pode existir uma massa mamária. Deve-se suspeitar de doença de Paget
em qualquer dermatite persistente do mamilo ou aréola.
·
Carcinoma inflamatório: a forma mais
maligna, compreende 3% dos casos de câncer de mama. Achados clínicos: massa de
crescimento rápido, as vezes dolorosa; pele eritematosa (vermelhidão),
edematosa e quente.
·
Câncer de mama bilateral: o aparecimento
simultâneo de câncer nas duas mamas é raro (menos de 1% dos casos), porém, a
ocorrência tardia de câncer na outra mama (após uma apresentar câncer) é de
5-8%
·
Câncer de mama durante gravidez ou lactação: também
de rara ocorrência (1-2% dos casos), pode ser mascarado devido as alterações
hormonais decorrentes da gravidez ou lactação.
Vale lembrar que podem existir muitos subtipos dentro de
cada forma clínica, porém, desde que avaliado adequadamente o estagiamento,
estes não tem influência aparente no prognóstico.
O estagiamento, aliás, é de suma importância para a
determinação da evolução do câncer e qual terapia será eleita. O sistema mais
comum de determinação do estagiamento é o TNM, que avalia: tamanho do tumor;
acometimento dos nódulos linfáticos adjacentes; e presença ou não de metástases
em outros órgãos.
A única maneira eficaz de se ter uma idéia precisa sobre
como tratar um câncer em particular é por meio da biópsia.
Através dela se pode determinar quais características o tumor apresenta e,
assim, combatê-lo da maneira mais eficiente possível. Um teste de suma
importância realizado na biópsia é a verificação da presença de receptores
sensíveis a hormônios. Se sua presença for confirmada, é indicada terapia de
controle hormonal.
SINTOMAS
Concluindo, após essa consideração a respeito de como surge
e evolui o câncer de mama, apresentamos a seguir um conjunto de sinais que
merecem atenção
- Surgimento de nódulos ou cistos, causem eles dor ou não;
- Modificação no formato e contorno da mama;
- Retração da pele;
- Enrugamento, alteração do contorno e retração ou desvios do mamilo;
- Edema cutâneo, sob a forma de pele espessada e com poros aumentados, o chamado peau d’orange (casca de laranja);
- Dermatite persistente do mamilo ou aréola.
SE NOTAR QUALQUER ALTERAÇÃO COMO AS MENCIONADAS ACIMA,
PROCURE IMEDIATAMENTE UM PROFISSIONAL ESPECIALIZADO.
Amanhã, encerrando a semana de postagens sobre o câncer de
mama, falaremos sobre o auto-exame e sobre prevenção, diagnóstico e tratamento.
Referências Bibliográficas:
GUYTON A. & HALL J. Tratado de fisiologia médica. 11ª
Ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006.
BICKLEY L.S. Bates: Propedêutica médica. 10ª Ed. Rio
de Janeiro: Guanabara-Koogan, 2010
TIERNEY JR L.M.; McPHEE S.J.; PAPADAKIS M.A. Diagnóstico
e tratamento. s/Ed. São Paulo: Atheneu, 1998.
BEERS M. et
col. The Merk manual of clinical diagnosis and therapy. 17ª ed. New
Jersey: Merk & Co., 1999.
ABRAHAM J.
& ALLEGRA C.J. Bethesda handbook of clinical oncology. s/ed.
Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2001.

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