sábado, 25 de outubro de 2014

Farmacovigilância: O que é e para que serve?

      Antes de ler esse post, seria interessante você ler a publicação de terça-feira (21) sobre o Uso Racional de Medicamentos, pois Farmacovigilância aborda também este fato.
      Talvez você já tenha escutado este termo em algum lugar, mas você sabe exatamente o que é?


      

      Farmacovigilância é uma ação que envolve um conjunto de procedimentos para detectar, avaliar, compreender e principalmente prevenir reações adversas a medicamentos. Isso é feito em medicamentos que já estão no mercado. É realizada de forma compartilhada com as Vigilâncias estaduais e municipais em conjunto com a ANVISA (Agencia Nacional de Vigilância Sanitária). 
      O objetivo principal é diminuir as taxas de morbidade e mortalidade associada ao uso de medicamentos, por meio de uma detecção precoce de erros, ou problemas na segurança desses medicamentos.
     A principal ferramenta da farmacovigilância é a notificação espontânea por parte dos profissionais de saúde, de toda suspeita de reação adversa causada por medicamento ou mesmo de outros problemas relacionados a medicamentos como desvios de qualidade, perda de eficácia, abuso, intoxicação, uso indevido ou mesmo erros de administração. Essa notificação é muito importante para obter a identificação precoce de reações adversas desconhecidas, identificação do aumento da frequência de reações conhecidas, identificar os fatores de risco e principalmente promover a disseminação dessas informações para garantir a correta prescrição e regulação do medicamento, gerando assim o uso racional e seguro de medicamentos.


Que tal um pouco de história?

       
       Em 1956 foi lançado no mercado um medicamento, inicialmente antigripal, que se tornou muito popular na Europa, precisamente, na Alemanha, de onde originou. A Talidomida era considerada pelos alemães como um medicamento seguro e atóxico e por isso era vendido sem prescrição médica. Era indicada para dores de cabeça, asma, tosse e enjoos para as mulheres grávidas e até era utilizada para induzir o sono. Em meados de 1959, médicos desconfiaram da ação da talidomida associado à má formação de bebes, principalmente nos membros superiores, e grande parte eram natimortos, ou morreram logo após o nascimento. Por fim, na década de 60, a talidomida teve seu efeito teratogênico confirmado e foi imediatamente retirado do mercado. Esse acontecimento foi um marco na história dos medicamentos, porque até então esse efeito era pouco testado. No Brasil, a talidomida é liberada para tratamentos específicos, como hanseníase. Em 1963, a décima sexta Assembleia Mundial de Saúde, adotou uma resolução (WHA 16.36) que reafirmou a necessidade de ações imediatas em relação a disseminação rápida de informações sobre reações adversas a medicamentos, o que conduziu posteriormente, à criação do projeto de Pesquisa Piloto para a monitorização Internacional de Medicamentos da OMS em 1968 com o intuito de identificar efeitos adversos de medicamentos desconhecidos ou pouco estudados em esfera internacional. A partir daí, iniciaram-se a prática e a ciência da farmacovigilância. 


Uma visão geral

      
     Na última década, houve conscientização crescente de que a farmacovigilância deveria ser estendido para a identificação de novos sinais relativos à segurança. A globalização, o consumismo, a explosão do livre comércio, a comunicação entre fronteiras e o uso crescente da Internet resultaram numa mudança do acesso a todos os medicamentos e às informações sobre eles. Essas mudanças fizeram surgir novos tipos de questões relativas à segurança, como, por exemplo:
  • Venda ilegal de medicamentos e drogas de abuso pela Internet;
  • Prática crescente de automedicação;
  • Práticas irracionais e potencialmente inseguras de doação de medicamentos;
  • Ampla fabricação e venda de medicamentos falsificados e de baixa qualidade;
  • Uso crescente de medicamentos tradicionais fora do âmbito da cultura de uso tradicional;
  • Uso crescente de medicamentos tradicionais e plantas medicinais com outros medicamentos com potencial para interações medicamentosas adversas.


     Os objetivos específicos de farmacovigilância são:

  •  Melhorar o cuidado com o paciente e a segurança em relação ao uso de medicamentos e a todas as intervenções médicas e paramédicas;
  •  Melhorar a saúde pública e a segurança em relação ao uso de medicamentos;
  •  Contribuir para a avaliação dos benefícios, danos, efetividade e riscos dos medicamentos, incentivando sua utilização de forma segura, racional e mais efetiva (inclui-se o uso custo-efetivo); e
  • Promover a compreensão, educação e capacitação clínica em farmacovigilância e sua comunicação efetiva ao público.


Quem pode realizar a notificação?


      
     O que diz se o sistema de notificação será um sucesso ou não, é a motivação dos notificadores. Antigamente apenas o médico poderia realizar a notificação, pois acreditavam que seu julgamento seria de maior qualidade e asseguraria o mínimo de notificações relacionadas. Hoje, qualquer profissional da saúde pode notificar, fazendo com que haja uma ampla visão do estado do paciente durante o tratamento medicamentoso.              Para obter um quadro representativo, é preciso que todas as unidades de assistência à saúde estejam envolvidas, como hospitais públicos e privados, clínicas gerais, asilos, farmácias e clínicas de medicina tradicional. Todos os lugares onde há uso de medicamentos, deve alertar em caso de reações adversas ou eventos médicos inesperados. Obviamente, quem sente o mal da reação adversa é o paciente, e este quando perceber deve imediatamente contatar seu médico, ou o profissional de saúde responsável, desta forma ele irá realizar a notificação baseando-se no depoimento do paciente, considerando as declarações objetivas. A participação do paciente irá garantir a eficácia do sistema de farmacovigilância. 
       No documento da Organização Mundial da Saúde disponibilizado nas referências, há muitas informações para aprimorar o seu conhecimento, em relação a dificuldades e muito mais. 




Como notificar?


       
      Há um portal que se encontra no site da ANVISA para realizar a notificação, é o Sistema Nacional de Notificações para a Vigilância Sanitária – NOTIVISA. O Notivisa recebe notificações de casos confirmados ou suspeitos de queixas técnicas e eventos adversos a medicamentos. Podem ser notificados como eventos adversos a medicamentos as suspeitas de reações adversas, de inefetividade terapêutica e os erros de medicação que levaram a eventos adversos, além das suspeitas de interação medicamentosa, problemas decorrentes do uso não aprovado de medicamentos e do uso abusivo de medicamentos. Já as queixas técnicas abrangem as suspeitas de alteração ou irregularidade de um produto/empresa relacionadas a aspectos técnicos ou legais, que não causaram dano à saúde individual e coletiva até o momento da notificação.
        Antes de realizar a notificação, é necessário o cadastro, lembrando que apenas os profissionais da saúde podem realizar essa notificação. Segue o link para fins de estudo: http://www8.anvisa.gov.br/notivisa/frmCadastro.asp.


Farmacovigilância em ação.








Referências Bibliográficas:



Aloísio Brandão. Talidomida: descobertas, possibilidades, polemicas e cautela. <http://www.cff.org.br/sistemas/geral/revista/pdf/127/015a018_talidomida.pdf>


Agencia Nacional de Vigilância Sanitária. Farmacovigilância. Disponível em: <http://portal.anvisa.gov.br/wps/content/Anvisa+Portal/Anvisa/Pos++Comercializacao+-+Pos+-+Uso/Farmacovigilancia>


Organização Mundial da Saúde. A importância da farmacovigilância: Monitorização da segurança dos medicamentos. Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/importancia.pdf>


Centro de Vigilância Sanitária. Farmacovigilância. Disponível em: <http://www.cvs.saude.sp.gov.br/apresentacao.asp?te_codigo=22>


Agencia Nacional de Vigilância Sanitária. Boletim de Farmacovigilância Ano I nº 1 / jul/set de 2012. Disponível em: <www.crfms.org.br/.../373-boletim-de-farmacovigilancia-anvisa.pdf>

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

AUTOMEDICAÇÃO OS RISCOS DE UMA ATITUDE IRRESPONSÁVEL!!!


Automedicação:
os riscos de uma atitude irresponsável

O Brasil é campeão da automedicação. Genéricos ou de marca, com ou sem prescrição, comprados em farmácias reais ou virtuais, o que não faltam são opções de medicamentos e diversas facilidades para adquiri-los, até mesmo no conforto de casa, sem precisar se locomover.

A opção é muito mais atraente e simples do que marcar uma consulta médica para, só então, tomar conhecimento do medicamento mais indicado, posologia, contraindicações e possíveis efeitos colaterais. Isso se o caso realmente necessitar de terapia medicamentosa, pois, muitas vezes, até chegar ao médico aquele sintoma já passou.

Pouca gente imagina, mas os medicamentos são o principal agente causador de intoxicação em seres humanos no Brasil, ocupando, desde 1994, o primeiro lugar nas estatísticas do Sistema
Nacional de Informações Tóxico- Farmacológicas - SINITOX. As crianças menores de 5 anos representam cerca de 35% destes casos de intoxicação.

Recentemente, providências foram tomadas contra o abuso dos antibióticos. Hoje, sua venda é controlada e somente realizada mediante retenção de uma via da receita médica. Ponto para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) que visa  combater um grave problema de saúde pública: o desenvolvimento de bactérias cada vez mais resistentes por conta do uso indevido ou incorreto dos antibióticos, o que fortalece os microorganismos.

           Porém, com esta barreira para o uso abusivo, os pacientes passaram a utilizar outra classe de medicamentos, os anti-inflamatórios. Embora utilizem drogas diferentes, para fins distintos, eles vêm sendo adotados para todo o tipo de queixa, desde dores de cabeça, na coluna, dor de garganta, entre muitas outras.

Acontece que os anti-inflamatórios são remédios perigosos e, se administrados indiscriminadamente, podem fazer muito mal, provocando contração dos vasos, retenção de sódio e água, aumentando a pressão arterial, e colocando em risco o coração e os rins. Têm, ainda, ação lesiva sobre o fígado, provocam gastrite e lesão intestinal, tornando o indivíduo passível de desenvolver úlceras no aparelho digestivo. Outro risco importante, comum a automedicação de maneira geral, é o de mascarar doenças ou até agravá-las.


Maior restrição à venda destes medicamentos, a exemplo do que vem acontecendo com os antibióticos, seria uma ação efetiva, porém pontual.
A rigorosa supervisão sobre a venda e prescrição médica deveria atingir a diversas outras classes de medicamentos, pois todos eles, inclusive aqueles de venda livre, não podem ser consumidos sem controle. Todos têm indicações e posologia específicas, além do risco de provocarem efeitos colaterais e danos à saúde.

A população precisa ser informada, conhecer os riscos relacionados aos medicamentos e, sobretudo, ter a oferta de um sistema de saúde adequado que leve ao paciente procurar pelo médico, e não pelo medicamento.

Antônio Carlos Lopes, presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica

 

Automedicação pode prejudicar a saúde visual

O uso indiscriminado de colírios pode trazer consequências sérias para a visão, inclusive cegueira. Oftalmologista alerta que qualquer medicamento deve ser prescrito por um especialista, mesmo o lubrificante ocular.
Os olhos, assim como a pele, são órgãos que ficam expostos e também sofrem com as mudanças climáticas. Por isso, os cuidados precisam ser intensificados. O calor e o tempo seco podem provocar sensações desconfortáveis como vermelhidão, irritação e a impressão de que os olhos estão com areia. O oftalmologista Celso Boianovsky explica que estes incômodos são típicos do chamado olho seco. “A falta de lubrificação pode, inclusive, facilitar o surgimento de infecções, como a conjuntivite, que é muito comum nesta época do ano”, completa.

Boianovsky conta que o uso de lubrificantes oculares é muito comum nesta época do ano, mas chama a atenção para o fato de que usar qualquer tipo de colírio sem orientação médica é um risco para a saúde ocular, ainda que seja um medicamento simples. “Os lubrificantes não representam riscos, mas devem ser prescritos por um oftalmologista. A mesma regra vale para outros colírios utilizados para o tratamento de patologias oculares como a conjuntivite viral e bacteriana”. Segundo o médico, se o medicamento for utilizado de forma incorreta pode causar sérios danos aos olhos, inclusive cegueira.

Ele esclarece que colírios com antibióticos, se forem utilizados de forma crônica e irregular, podem provocar mutações de bactérias que vão se tornar resistentes ao medicamento. Mesmo aqueles colírios para deixar os olhos branquinhos podem ter efeito colateral e provocar alterações na pressão arterial. Os cremes e pomadas para os olhos também devem ser indicados pelo oftalmologista. Diversas doenças oculares podem ter os mesmos sintomas: coceira, vermelhidão e baixa visão. Sendo assim, apenas o diagnóstico preciso pode indicar o tratamento correto.

“Se as pessoas conhecessem os riscos da utilização de colírios sem indicação médica, jamais se automedicariam. Se for utilizado de maneira errada, além de não resolver o problema pode causar outros, até mesmo que fora da região dos olhos, como taquicardia, asma e depressão”, alerta Dr. Celso.

 
Para minimizar esses Agravos foi sancionada a lei que transforma farmácia em unidade de saúde e altera sua caracterização de estabelecimentos comerciais para locais de promoção do uso racional de medicamentos

A Lei 13.021, que entrou em vigor no, dia 25 de setembro, transforma as farmácias e drogarias do país em unidades de assistência à saúde, alterando sua caracterização de estabelecimentos comerciais para locais de promoção do uso racional de medicamentos.





 

 

Referências

Ministério da Saúde    Email: www.saude.gov.br/
Associação Brasileira de Clínica Médica   Email: sbcm@sbcm.org.br
Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo   Email: portal.crfsp.org.br/

terça-feira, 21 de outubro de 2014

USO RACIONAL DE MEDICAMENTOS




O que significa uso racional de medicamentos?

A Organização Mundial de Saúde diz que há uso racional de medicamentos quando pacientes recebem medicamentos apropriados para suas condições clínicas, em doses adequadas às suas necessidades individuais, por um período adequado e ao menor custo para si e para a comunidade. Porém, o que se observa, mostra uma realidade bastante diferente. Pelo menos 35% dos medicamentos adquiridos no Brasil são feitos através de automedicação. Os medicamentos respondem por 27% das intoxicações no Brasil e 16% dos casos de morte por intoxicações são causados por medicamentos. Além disso, 50% de todos os medicamentos são prescritos, dispensados ou usados inadequadamente, e os hospitais gastam de 15 a 20% de seus orçamentos para lidar com as complicações causadas pelo mau uso dos mesmos. A proposta de alívio imediato do sofrimento, como em um passe de mágica, é um apelo atraente, mas tem seu preço. Este preço nem sempre se restringe ao desembolso financeiro e pode ser descontado na própria saúde. Os requisitos para o uso racional de medicamentos são muito complexos e envolvem uma série de variáveis, em um encadeamento lógico. Para que sejam cumpridos, devem contar com a participação de diversos atores sociais: pacientes, profissionais de saúde, legisladores, formuladores de políticas públicas, indústria, comércio, governo.


O papel simbólico dos medicamentos e a sociedade de consumo

 “O consumo é algo inerente ao homem”, havendo uma relação entre as transformações da sociedade e o fenômeno do consumo. Sendo assim, o medicamento não está desvinculado dessa característica social. Diferentemente de outras épocas históricas, o capitalismo pós-moderno incentiva o consumo através da publicidade e da ideia de substituição do “prazer vicário do ter sobre o ser”. O uso de drogas pela humanidade, para os mais diversos fins, é antiquíssimo e permanece como um ato, ainda hoje, cheio de conteúdos simbólicos nas mais diversas culturas.

Cordeiro afirma que os medicamentos ocupam o lugar de símbolos e representações que obscurecem os determinantes sociais das doenças, iludem os indivíduos com a aparência de eficácia científica e, como mercadoria, realizam o valor e garantem a acumulação de um dos segmentos mais lucrativos do capital industrial.

 Para Lefèvre, esta afirmação é apenas parcial, pois os medicamentos conseguem iludir e funcionam como paliativos dos sofrimentos de milhares de indivíduos, não como aparência, mas com a realidade da sua eficácia científica. A hiper valorização no alcance da tecnologia médica passa a considerar como doença problemas os mais diversos (situações fisiológicas ou problemas cuja determinação são, em última análise, fundamentalmente, de natureza econômico social), como tal demandando, para sua solução, procedimentos médicos.

 Considera-se o medicamento uma resposta imediata e fácil para condições que requerem ações individuais e sociais de fundo para sua resolução. Pierce afirma que a sociedade de consumo, ao mesmo tempo em que promove, por todos os seus canais de comunicação, a ideia de que qualquer sofrimento, qualquer dor, qualquer estado, enfim, que fuja daquilo que ela institui como padrão, inclusive estético; por outro lado, oferece a solução mágica na ponta dos dedos: os comprimidos.

Preocupado com este grave problema de saúde pública, o Ministério da Saúde do Brasil criou o Comitê Nacional para a Promoção do Uso Racional de Medicamentos por meio da Portaria nº 427/07, o que vem a atender uma recomendação da OMS. O Comitê desenvolverá ações estratégicas para ampliar o acesso da população à assistência farmacêutica e para melhorar a qualidade e segurança na utilização dos medicamentos.

De uma maneira geral, as soluções propostas para reverter ou minimizar este quadro devem passar pela educação e informação da população, maior controle na venda com e sem prescrição médica, melhor acesso aos serviços de saúde, adoção de critérios éticos para a promoção de medicamentos, retirada do mercado de numerosas especialidades farmacêuticas carentes de eficácia ou de segurança e incentivo à adoção de terapêuticas não medicamentosas.





Referências

1. World Health Organization. The rational use of drugs: report of the conference of experts. Nairobi 1985 Jul 25-29. Geneva: WHO; 1987.        [ Links ]

2. Brasil. Ministério da Saúde. Política Nacional de Medicamentos. Brasília: Ministério da Saúde; 2001.         [ Links ]

3. Barros JAC. Propaganda de medicamentos: atentado à saúde? São Paulo: Hucitec/Sobravime; 1995.         [ Links ]