Em vista da cada vez mais alarmante epidemia de ebola na África Ocidental, do surgimento dos primeiros casos fora do continente africano e da primeira suspeita no Brasil, resolvemos fazer um post dedicado a este que é considerado um dos vírus mais letais que o homem tem conhecimento.
Alguns especialistas acreditam que o ebola teve origem na caverna Kitum, localizada na garganta de Olduvai, no Quênia. Existem cinco variedades do vírus: Reston, Zaire, Sudão, Bundibugyo e Floresta Taï, além do “aparentado” Marburg. Destas, aparentemente, apenas o Ebola Reston não é ativo no ser humano, embora o seja em macacos. Em contrapartida, o Ebola Zaire apresenta uma taxa de letalidade próxima dos 90%.
Até o momento, não foi identificado com precisão um animal que possa ser considerado o “reservatório” do vírus. Quando do surgimento dos primeiros casos, pensou-se que fosse algum símio. Porém, o ebola mata macacos com a mesma intensidade que o faz em humanos; portanto, é improvável que o vetor seja algum primata. Os principais “suspeitos” são morcegos frugívoros e ouriços.
Não há muitos estudos científicos sobre o vírus; isso se deve, alem do fato dele ser relativamente novo, de poucos centros de pesquisa no mundo serem preparados para conduzir pesquisas com o vírus. O mais conhecido é o CDC de Atlanta nos Estados Unidos, local onde a maior parte dos exames laboratoriais de suspeitas da doença é feito. Lá, o Ebola é mantido no nível de segurança 4 (o mais alto), nas chamadas “salas quentes” (hot zones), laboratórios especialmente equipados para evitar qualquer contaminação para o mundo exterior. A título de comparação, no mesmo centro, o HIV, vírus causador da AIDS, é estudado no nível 2.
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| Vírus Ebola - Fonte: http://www.tuasaude.com/virus-ebola/ |
HISTÓRIA
A “descoberta” do ebola começou em 1967, com seu “primo”, o vírus Marburg. Pessoas que tiveram contato com macacos-verdes africanos (Chlorocebus aethiops) importados de Uganda, em Frankfurt-am-Main (Alemanha Ocidental, na atual Alemanha) e Belgrado (Iugoslávia, hoje Sérvia) desenvolveram um tipo de febre hemorrágica. Trinta e uma pessoas apresentaram sintomas, sendo que sete vieram a óbito. Estava identificada uma nova classe de vírus, hoje conhecida como Filoviridae, que logo teria novos integrantes.
A primeira epidemia de Ebola ocorreu em 1976, no Zaire (atual República Democrática do Congo) e nas regiões sudanesas de M’zara, Maridi e arredores, que hoje pertencem ao Sudão do Sul. No Sudão, houve 284, sendo 141 fatais (mortalidade aproximada de 50%); já no Zaire, dos 318 casos, 280 foram a óbito, uma mortalidade de 88%. Assim, foram identificadas as duas primeiras cepas do vírus, as variedades Sudão e Zaire. Como os primeiros casos surgiram nas proximidades do rio Ebola, o vírus foi assim designado com o nome deste rio.
Após quase vinte anos de silêncio, o Ebola ressurgiu entre 1994 e 1995, novamente na República Democrática do Congo e alguns casos em menor escala no Gabão, Libéria, Costa do Marfim, Uganda e África do Sul. Foram identificados dois novos subtipos do vírus, Floresta Taï e Bundibugyo; ao todo, houve 459 casos com 366 mortes. O vírus voltou a atacar em larga escala novamente em 2000 e 2001 nos distritos de Gulu, Masindi e Mbarara, em Uganda, onde houve 425 casos com 224 mortes, todos pela variedade Sudão; e entre 2001 e 2002, nos distritos de Mekembo, no Gabão, e Mbomo e Kelé, na República do Congo.
Desde então, apenas casos isolados foram registrados, sempre nas mesmas localidades, ou seja, predominantemente na África Oriental. Porém, no início deste ano, o Ebola reapareceu, e com uma intensidade jamais vista antes. Além de aparecer pela primeira vez em países da África Ocidental (Serra Leoa, Libéria, Guiné-Conakry, Nigéria, Mali), o numero de casos já é superior à soma de todos os casos anteriores da doença. Em 5 de outubro, segundo o US Center of Diseases Control and Prevention, haviam 8033 casos, com 4461 confirmados laboratorialmente, com 3865 mortes.
SINTOMAS
Os sinais da infecção por Ebola aparecem em geral entre 2 a 21 dias após a exposição. Incluem: febre (superior a 38,6 ºC), fortes dores de cabeça e musculares, fraqueza, diarréia, vômitos e dores abdominais. Esses primeiros sintomas podem facilmente levar a um diagnóstico equivocado de malária, febre tifóide ou outras doenças.
Com o passar do tempo, começam a surgir inexplicáveis hemorragias, daí onde vem o nome da doença: febre hemorrágica por Ebola (EHF, Ebola Hemorrhagic Fever). O óbito sobrevém após dez dias, em média, após o início dos sintomas. A morte em geral se dá por falência múltipla dos órgãos ou choque séptico. Aqueles que se recuperam, adquirem resistência à doença por pelo menos dez anos, talvez mais. Não se sabe se a resistência se estende a todos os tipos do vírus.
O vírus ataca em conjunto diversos tipos de células, sendo o endotélio dos vasos, monócitos, macrófagos, fibroblastos, hepatócitos e células das adrenais as mais lesadas.
DIAGNÓSTICO
É difícil diagnosticar a doença no seu início, devido aos sintomas serem inespecíficos. É crucial a informação sobre o contato com pacientes ou animais com a doença. A confirmação é feita através exames laboratoriais, com o isolamento de vírions ou detecção de anticorpos.
TRATAMENTO
Não há tratamento para febre hemorrágica por Ebola. A terapia se reduz a reidratação, manutenção dos eletrólitos, níveis de oxigênio e pressão arterial, combate aos sintomas e tratamento a infecções oportunistas que podem ocorrer. É tudo o que se pode fazer. Uma droga experimental chamada ZMapp teve certa efetividade em primatas, sendo fornecida a dois profissionais contaminados na África durante a atual epidemia, porém não há resultados conclusivos sobre sua real efetividade e segurança.
PREVENÇÃO
A higiene é muito importante na prevenção; lavar as mãos com água corrente e sabão ou álcool e evitar contato com fluidos corporais como sangue ou suor de possíveis contaminados. Mesmo itens pessoais como roupas ou material médico usado no tratamento de doentes devem ser sumariamente descartados devidamente, ou de preferência, incinerados. Os funerais tradicionais na África, onde os parentes preparam o corpo para o enterro devem ser desencorajados. Evitar também o contato com morcegos e primatas, pois são os maiores transmissores do doença. Profissionais de saúde que lidam com pacientes infectados devem utilizar trajes específicos para proteção contra risco biológico, além de se submeter regularmente estrita higienização com soluções esterilizantes após contato com doentes.
O ser humano já provou ser capaz de feitos extraordinários. Já mandamos sondas à Vênus, Marte, Júpiter, Saturno e Plutão, já ultrapassamos os confins do Sistema Solar; já alcançamos os mais profundos abismos submarinhos. Já escalamos o topo do mundo. Já provamos do nosso ódio nuclear de nossos próprios semelhantes. Já estamos quase aniquilando nossa própria morada, correndo o risco de sermos “refugiados cósmicos”, sem ter para onde ir. Mas também já provamos que podemos fazer o bem uns aos outros. Ainda assim, morremos devido a um diminuto ser, se é que é ser, e será que não há nada que possamos fazer contra isso? Será que há algo mais valioso do que preservar a vida? Será que há limites de esforços para isso? Não nos resta muito tempo para pensar na questão.
Referências Bibliográficas
CASILLAS A.M. et col. A Current Review of Ebola Virus: Pathogenesis, Clinical Presentation, and Diagnostic Assessment. Biological Research for Nursing, Vol. 4, No. 4, April 2003
SMITHER S.; LEVER M. A Review of Filovirus Work and Facilities at The Defence Science and Technology Laboratory Porton Down. Viruses, 2012, pg. 1305-1317. ISSN 1999-4915. www.mdpi.com/journal/viruses
XIANG GUO QIU et col. Reversion of advanced Ebola virus disease